Pães, queijos e vinhos. Nem low-carb, low-fat ou low-kcal. Franceses apenas comem comida de verdade.

Esse ano estou passando uns meses em Saint Genis Pouilly, uma comuna francesa que faz fronteira com a Suíça. Eu estou no paraíso dos queijos, vinhos e pães! Os preços são bem convidativos e tudo de boa qualidade. As vacas aqui pastam e tudo é produzido quase que artesanalmente, vendido em lojinhas locais e feiras. Minha experiência aqui na França tem sindo literalmente muito gostosa e intrigante.

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Já ouviu falar do “paradoxo francês”? É uma observação antiga: “franceses comem gordura e ao mesmo tempo tem pouca incidência de aterosclerose”.

Esse tal paradoxo é uma observação com várias hipóteses a serem consideradas, como a que gordura saturada não causa doenças cardiovasculares, de que vinho faz bem para saúde e que o estilo de vida francês também influência nisso tudo. Aha! O estilo de vida francês! Não vamos ficar apenas com a parte que queremos ouvir, saúde é muito mais do que só comida.

Ao mesmo tempo que esse paradoxo é uma observação antiga, ele também trata de assuntos modernos. Eu não estou falando sobre gordura. Acho que todo mundo já aceitou que gordura não é a raiz de todos os males. Também não quero falar de dietas, só vou fazer a observação de que franceses também comem pão, doces, queijos e vinhos e são magros. O paradoxo continua sendo um paradoxo. Mas será que deveria mesmo ser motivo de espanto?

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Queijos cru: Petit Munster, Morbier, Tomme de Savoie e Chavignol. Na casa  em Saint Genis Pouilly.

Franceses não se importam com o que a ciência moderna diz sobre gordura, glúten, laticínios e etc. Tampouco são atingidos por embalagens apelativas com dizeres saudáveis. Talvez por isso sua culinária se mantenha intocável. Aqui se come comida simples, natural e local. Vegetais orgânicos, queijo cru de vacas que pastam e pães integrais e artesanais.

Franceses compram comida de seus pequenos produtores, usam ingredientes bons e frescos. Uma boa janta francesa tem salada de entrada, o prato principal e depois queijos ou sobremesa. Tudo acompanhado de pães rústicos e vinhos. A vovó francesa não trocaria o açúcar do seu Crème brulée por xilitol. E também não trocaria o seu pain au chocolat (um tipo de croissant doce recheado) por bacon no café da manhã.

E eles não fazem isso porque “é assim que deve ser”, eles comem assim porque é a cultura deles. Eles valorizam seus produtos e seus pratos. Valorizam suas famílias e uma boa conversa à mesa. Eles voltam caminhando dos mercadinhos e feiras com vegetais frescos em suas sacolinhas retornáveis e baguettes artesanais nos braços. Dizem bonjour para quem passa, enfeitam suas casas com flores no verão e reciclam seus lixos.

Estou encantada com a vida francesa e como eles preservam a cultura da comida regional. Feiras, pequenos produtores, mercearias simples e orgânicas sem nenhuma apelação de “superfoods”. Comida aqui é simplesmente comida, fresca e natural como deve ser.

A gente sempre aprende um pouco mais observando culturas diferentes e com certeza temos muito o que aprender com os franceses. Comer é mais do que só se alimentar, envole cultura, produção sustentável e relações afetivas.

Obrigada, França, por nos receber tão bem e por todo aprendizado.

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Plantação de uvas. Passeio de bicicleta até Genebra.

 

Pra quem se interessa sobre artigos sobre alimetação e emagrecimento, eu indico a leitura desse paper em inglês: Oxytocin reduces reward driven food intake: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23835346